quarta-feira, 4 de março de 2020

Mjadra, HQ de Thiago Ossostortos



"Mimimi" (Fudêncio)
Derick, ex-Vj da MTV, retorna ao quartinho próximo ao MASP, onde o senhorio Azani, descendente de árabes, costuma servir mjadra e, talvez, tome a juventude de seus inquilinos com o uso de feitiçaria. Nesse retorno, Derick recordará os bons anos de MTV Brasil, testemunhará seu fim repentino e tentará roubar as conquistas pessoais de outro jovem inquilino do local, atual ocupante de seu antigo quarto. É assim que posso resumir a HQ.
Zorro e Carranca eram colegas de academia de meu irmão. Todos entupiam-se de estanozolol juntos, com mais algumas substâncias de origem duvidosa e aplicações inclusive veterinárias. Eles mantinham um negócio de gravação de vídeo clipe. Havia um classificador com folhas datilografadas onde abundavam listas de clipes numerados. Você escolhia os vídeos pela numeração, pagava alguns centavos por unidade (não recordo o preço) e recebia o VHS gravado. Todos os vídeos eram da MTV. Mais à frente, minha amiga Wanessa Wanderley - vulgo Madonna -, nos repassava conteúdo em VHS, gravado em sua casa. De toda a turma de nossa escola (saudoso CDI, hoje fechado), era a única com acesso aquele canal diferente em tudo do que estávamos acostumados.

A MTV Brasil teve relevância em minha vida, enfim, mesmo quando não possuía acesso a ela. E recordo bem quando de seu último sopro de vida, no último dia de transmissão (vídeos abaixo). E quem se recorda bem, igualmente, é Thiago Ossostortos e seu "meio alter ergo" Derick, ex-VJ da emissora que, adulto, em crise conjugal e espiritual, retorna ao seu quartinho alugado próximo à Avenida Paulista para tentar se reencontrar. Ah, e nem tudo é ficção. Algumas personagens essenciais à trama realmente existiram e o apartamento de Azani esteve presente na vida do autor. Além disso, claro, todos os VJs mencionados durante a trama realmente existem/existiram (alterados os nomes, claro). Aliás, o próprio Derick também existiu, só que não o conhecemos. E aí está uma boa sacada de Ossostortos (spoiler): as últimas páginas da HQ se passam justamente nos últimos dias de existência da MTV Brasil, no icônico prédio sobre o qual repousa a Torre Victor Civita. Ali, na festa de despedida, o protagonista observa o horizonte da sacada, ao que uma VJ mais jovem pergunta ao veterano quem é ele, ouvindo a resposta: "É o Deck! Era office boy. Daí fez teste para VJ e ganhou até programa! Mas depois de gravarem um monte, foi cancelado! Antes mesmo de estrear!". Sim, Derick foi o video jockey que nunca conhecemos porque não exibiram seu programa.

Para quem não sabe, a MTV Brasil afundou em meio ao processo de bancarrota da editora Abril, acompanhado de perto por nós, leitores de quadrinhos em geral e especialmente os disneyanos. E eu gostava mesmo dela. Até os comerciais eram bacanas com aquelas vinhetas bizarras. Quando passou a apostar em humor, também achei positivo e conseguiram manter a qualidade até o final.

Mjadra teve financiamento coletivo do qual participei. Mencionei a respeito na postagem Crowdfunding no Catarse: Francisco Marcatti e Thiago Ossostortos. E, deste autor, também já indiquei a excelente Os Últimos Dias do Xerife. E valeu o apoio. Além de uma ótima história que me divertiu e me tocou, foi caprichada no acabamento. A arte em guache, realmente, dispensa qualquer comentário. Isso você pode verificar nas imagens abaixo. Mas o acabamento é impecável: capa cartonada com orelhas generosas e papel similar ao cuchê com boa gramatura, além de boas dimensões físicas.

O gibi possui apresentação de Rafa Losso. Sim, o Rafinha. Quando telespectador da emissora, eu e alguns colegas nos referíamos a ele como "Boquinha". Sem dúvidas, foi um VJ marcante e que passava bastante conhecimento sobre música em seus espaços. Era uma figura até cativante, embora hoje esteja sumido do mapa e, quando dá as caras, parece exageradamente envolvido com movimentos ideológicos imbecilizantes.

Foi bem legal reviver aqueles momentos, ao topar, nos requadros, com personagens como Luiz Thunderbird, o chatonildo Cazé Peçanha, o arrogante João Gordo, a dupla Top Top Marina Person e Leo Madeira, a beldade (à época) Sabrina Parlatore e tantas outras, a exemplo de Marcos Mion, Penélope Nova e Astrid Fontenelle. Ah, e o próprio Rafael. E o mais curioso ao recordar aquela fase da vida é: como gostávamos daquelas pessoas que, hoje, nos parecem tão banais e insossas? Coisa da vida. Cada coisa a seu tempo. Até o PC Siqueira parecia bacana em seu programa PC na TV!

O título Mjadra refere-se a "um prato da culinária árabe que consiste em lentilhas, arroz e decorado com fatias fritas de cebola" (Wikipédia). E possui bastante relevância durante à trama, especialmente por ligar-se à memória afetiva/sensorial do protagonista. É algo preparado pelo senhorio do apartamento: Azani, inspirado no falecido Aziz, como já indiquei mais acima.

Não sei como está a venda avulsa desta HQ para quem não participou do crowdfunding. Se achar por aí, vale a pena dar uma chance.

Fico por aqui. Abraços musicais e até a próxima.








16 comentários:

Scant disse...

Fui um excluído digital até quase trinta anos de idade. Essa TV não pegava no subúrbio em q cresci

Mtv foi um sonho impossível de realizar na adolescência é hoje seria um desperdício assistir
Lindo gibi. O quadrinho nacional resiste.
Meu falecido irmão tb tomava bomba é vendia vídeos piratas, mas na era do dvd gravado em casa
Vhs tem um quê de saudosismo, mas fico feliz q tenha ficado pra trás
Adoraria a ideia de um case de design retrô para HD externo no formato de uma caixa vhs

Abs

Blogue do Neófito disse...

Mas, graças a Deus, hoje você pode se dar ao luxo de gastar com eletrônicos até com redundância. Poderia estar chorando as pitangas e escrevendo textão sobre exclusão social/racial. Mas não, arregaçou as mangas e foi para o melhor lugar onde alguém pode ascender financeiramente em pouco tempo: serviço público. Creio que este, aliás, mudará bastante. O futuro será para terceirizações. Somos dinossauros.

"mas fico feliz q tenha ficado pra trás"

Idem. Fonte de transtornos, dores de cabeças e até brigas em videolocadoras. Aliás, já falamos sobre isso: tempos áureos onde vivemos, com o franco acesso à informação!

Abraços, Scant!!

Fabiano Caldeira disse...

Li essa postagem ontem mas não tenho o que comentar. A Mtv fez parte breve em minha vida. Pegava muito mal e, apesar dos Vjs serem legais, era difíci eu conseguir acompanhar. Então não me sinto tocado por essas referências. Sem dúvida, é bom ver material novo, pessoal lutando pelo seu lugar ao Sol e, principalmente, conteúdo um pouco diferente do trivial. Certamente haverá um numerário de pessoas que se sentirão contempladas por essa obra, de alguma maneira. Isso é bom.

Blogue do Neófito disse...

"Certamente haverá um numerário de pessoas que se sentirão contempladas por essa obra, de alguma maneira."

Ótimas palavras, Fabiano, para posicionar a obra.

Abraços!

Fabiano Caldeira disse...

É porque sinto que ela foi feita pra homenagear com a nostalgia em torno das referências, ainda que veladas. Claro que toda a arte é para todos. Mas tive a impressão que a intenção deve ter sido essa.

Blogue do Neófito disse...

E está certo. Ela só encontra maior ressonância emocional em quem viveu a MTV.

Estante Nerd disse...

Eu tenho um certo preconceito com HQ's nacionais. Geralmente elas tem uma bela arte, uma sinopse interessante, mas o desenvolvimento do roteiro deixa a desejar.

No entanto, a última nacional que eu li eu gostei bastante e recomendo: O Elísio, sobre a participação brasileira na 2GM.

Blogue do Neófito disse...

Seus temores são plausíveis. Eu mesmo gosto bastante de HQs nacionais de terror antigas. As novas, avalio com parcimônia. Esta valeu mesmo a pena. Gosto do autor.

Desconheço O Elísio, mas pesquisarei a respeito.

Abraços!!!

Rodrigo disse...

Tem uma outra HQ brasileira sobre o mesmo tema com o exato problema que eu descrevi: Jambocks!

Arte foda nível Alex Ross (sem exagero), premissa interessante e desenvolvimento meia boca.

Blogue do Neófito disse...

Vasculhando as estantes aqui, acabo encontrando um monte de tranqueiras assim... E olha que já até me desfiz de algumas coisas, dando para outras pessoas. Vai que agrada a outro leitor.

Hoje, além do roteiro pífio, percebo que a ânsia por lacração também é grande, de maneira que o que era ruim, está pior. O poço não tem fundo.

Pateta disse...

Também não pegava na minha cidade. Assistia quando visitava minha mãe - tinha TV a cabo em São Carlos/SP. Madrugadas vendo The Maxx, Beavis and Butt-Head, South Park e Aeon Flux. Curtia também ver a porradaria no Pride Fighting Championships mas esse acho que passava no Multishow junto com Ren & Stimpy, rs. Maria Paula era massa! Abraços!

Blogue do Neófito disse...

Ah Maria Paula...

Abç!

Scant disse...

pride era top (https://www.youtube.com/watch?v=ZPpGATJQSZU) , mas nao consegui ver na época

The Maxx / Aeon Flux/ - vi apenas décadas depois - ambos são ótimos

Beavis and Butt-Head - não consigo prestar atenção - os personagens são muito toscos

Maria Paula - sonho de consumo de várias gerações

Blogue do Neófito disse...

Aeon Flux foi revolucionário. Me arrependi quando não comprei o box da série completa num cestão, há anos. Hoje, encontro apenas com frete caro por aí.

Scant disse...

esse eu tenho, guardo apenas os discos e aos encartes das capas. podiam ter feito um trabalho melhor: o box é de um papel cartão simples e só serve para guardar os discos que estão em diferentes caixas

podiam ter feito algo como um album ou uma embalagem melhor

Blogue do Neófito disse...

Sempre foi comum isso. Pegam discos avulsos, em suas caixinhas, e apenas acondicionam tudo numa caixa que, quase sempre, é em papel vagabundo... A "graça dos boxes", por assim dizer, é quando aparentam um grande álbum.

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