domingo, 16 de fevereiro de 2020

A Balada do Boiadeiro [ Conto ]


Desenho autoral.

O ar seco e o calor escaldante não eram sentidos dentro do moderno habitáculo do Axor 3344, espaçoso e bem equipado com transmissão automatizada sem pedal de embreagem e eficiente ar-condicionado. Contudo, à frente do para-brisa, o reflexo da luz sobre o vapor do asfalto indicava que, lá fora, o ambiente encontrava-se escaldante.

Há quase dois dias dirigindo com os miolos cansados e ao mesmo tempo parecendo que saltariam pelas têmporas após diversos flaconetes de arrebite, duas latinhas de Red Bull e uma garrafa térmica pequena com café queimado de cafeteira industrial Marchesoni (que serviam aos motoristas numa parada para abastecer), resolveu parar no imenso estacionamento localizado no meio de um trapézio composto pelo Posto e Hotel Fragoso, unidade da fiscalização agropecuária, conjunto de boxes com lanchonetes e churrascaria e a borracharia com lava a jato - barulhenta 24 horas ao dia pelo funcionamento intensivo das chaves de impacto pneumáticas.

Nesse caos de veículos de grande porte, carreteiros e caminhoneiros, prostitutas de meia idade e velhas bem como travestis sem seios - alguns até mesmo calvos e com barba rala a fazer -, transitavam em busca de programas que iam de dez a cinquenta reais. Em meio a toda essa zona temperada por poeira, ele não sabia se dormia, fodia ou comia. Resolveu fazer as três coisas, apenas ainda em dúvida se pegaria mulher ou travesti. Certamente optaria pelo mais barato.

Logo ao estacionar, um dos moleques que sempre transitavam no espaço - oferecendo serviços de estivador principalmente -, perguntou se poderia ficar eletrocutando os bois para que não adormecessem e acabassem se matando pisoteados uns sobre os outros. Por quinze reais o guri seco e definido, aparentando não mais que treze anos de idade, ficaria com a picana elétrica para destilar toda sua raiva naqueles animais. O boiadeiro foi primeiro ao banheiro para banhar-se e trocar de roupa, antes de comer um prato feito com arroz branco que mais parecia risoto, feijão carioquinha igualmente grudento, farofa maranhense, vinagrete e três pedaços de galinha caipira, com uma Coca-Cola "ks" para descer tudo.

Ao comer, surpreendeu-se com a recordação despropositada da prostituta cujo nome nunca soubera. Ela o havia roubado durante um programa e ele só percebera quando havia saído do posto fiscal de Cova Donga e encontrava-se nas imediações de Tauá. Eram R$ 200,00. Não parece tanto. Contudo, aquele valor certamente lhe faria falta. Seriam vinte dias de PFs na estrada. Após alguns meses, reconheceu a ladra no mesmo local e a chamou para um programa. Estacionou o caminhão próximo à antiga balança fiscal em desuso e, após perguntar se a garota o reconhecia, não pensou duas vezes: tacou-lhe um soco antes mesmo da resposta, somente diante da expressão de espanto da pobre coitada. Sentiu como se lhe partissem todos os dentes do lado esquerdo da face. A infeliz, desacordada, foi posta no asfalto com a cabeça sob a roda dianteira do veículo. Ao esmagá-la, diante da robustez do automóvel carregado, sequer deu para sentir do habitáculo. Até identificarem o corpo, foram quase dois meses. Era conhecida apenas como "Moça" no local, onde não possuía nenhum parente e sequer andava com documentos. Recordação deveras despropositada, essa. Logo voltou a comer e retirou a lembrança da mente como quem tange fumaça de cigarro com as mãos.

O mini estivador de treze anos de idade era mal. Tão logo o motorista saiu, tratou de enfiar o bastão de manejo entre as brechas da imunda carroceria de madeira roxinho e procurar animais que estivessem com a traseira virada para seu lado, a fim de lhes acertar os ânus ou testículos e tacar uma rajada de choque. Para ele, pena ser um dos bastões curtos da Walmur. Se fosse maior, ele desempenharia com facilidade sua sina de crueldade gratuita. Um carreteiro, compadecido pelo gado ou apenas grosso e querendo babujar com alguém, ainda o ameaçou ao ver aquilo: “Continua com isso e soco esse toco em teu rabo, filho da puta”. Na verdade, aquele velho da estrada conhecia bem o humano, e que há crianças de alma negra, assim como os canalhas que também envelhecem e nem por isso se tornam santos. Vivia, pois, sempre com os pés atrás, seja para adultos, crianças ou idosos. O projeto de demônio, com receio (pois já vira muita cabeça rachada e abdômen rasgado por ali), resolveu dar um tempo até perder o gordo de vista. Depois, retomou com a brincadeira sádica, tentando acerta especialmente um garrote – o menor de toda a boiada – que teimava em ir ao centro, protegido pelos demais.

O boiadeiro não se importava com maus tratos, desde que os animais permanecessem acordados. No restaurante, ele ainda tomou mais energético, quando resolveu não dormir e seguir viagem. Como não tinham Red Bull, se contentou com a latinha de Burn, crente que poderia dirigir por mais dois dias sem dormir e, chegando em casa, apagaria por vinte e quatro horas seguidas com quatro miligramas de clonazepam. Isso vinha dando resultados há anos. Alguns colegas bateram pino com esse ritmo de trabalho. Mas com ele vinha funcionando. Enquanto caminhava inalando poeira, fuligem de carvão e dióxido e monóxido de carbono emanado dos veículos que não usavam filtro redutor de poluentes e trocavam Arla 32 por água e urina, topou com um travesti relativamente jovem e não tão feio: “Vinte reais o bola gato, amor”. Ele aceitou e foram para a cabine – que outrora seu avô e pai, também boiadeiros – chamavam de boleia. Não viu o guri por perto e ficou de descer a taca no imberbe trambiqueiro, por abandonar o serviço. Mas, antes, foi fazer amor com sua garota cujo pomo-de-Adão parecia um triângulo equilátero perfeito e apenas uma das mãos daria para segurar, firme, bola de basquete. Infelizmente, não conseguia meter se não fosse com preservativos extrafinos, como os Blowtex Zero e Olla Sensitive. Ainda procurou no posto de combustível e em lanchonetes, mas apenas encontrava os distribuídos gratuitamente pelo Ministério da Saúde, vendidos a três reais a unidade. Nesses casos, aceitava o risco de contrair herpes, sífilis, gonorreia dentre tantos outros vírus, bactérias e fungos. Após ter contraído sífilis e se tratado com algumas aplicações de Benzetacil, achava que tudo se resolveria da mesma maneira, do HIV à hepatite C.

Após brigar com o travesti por querer pagar apenas dez reais pelo programa, caminhou ao redor de todo o trapézio em busca do pivete. Sentiu a cabeça pesar bastante e optou por dormi ao menos uma hora, pois estava um dia dentro do prazo. Deitou na cama da cabine e despertou com a boiada arredia. Certamente era o garoto tacando eletrochoque nos bichos.

Deu duas voltas observando o alvoroço da boiada, sem ver o pivete e identificar o motivo para aquilo. Resolveu entrar na carroceria, o que sempre era custoso pois havia mais animais que o permitido, espremidos. Destravou o ferrolho e ergueu a portinhola traseira até onde fosse possível ingressar com certo cuidado. Sentiu a espinha gelar quando, dentro da carroceria, todo os animais ficaram silenciosos e o observando como nunca antes havia visto. Não saberia como explicar aqueles olhos bovinos. Aos poucos, foi adentrando no interior daquela imenso jirau tão moderno e ao mesmo tempo tão arcaico.  O ambiente era sufocante; o calor, quase insuportável.

Quase na metade do percurso - transitando até facilmente ali, como se os bichos abrissem espaço propositadamente -, encontrou o ferrão elétrico. Nenhum rastro, contudo, do pequeno amaldiçoado. Provavelmente teria deixado escapulir o equipamento entre as frestas de madeira, sendo levado ao meio pelos cascos. Ao se abaixar para pegar (e que generoso espaço até para se curvar brotara ali!), sentiu o primeiro aperto. Rapidamente, os animais passaram a espremê-lo. Tentou gritar, mas no desespero e com a pressão, sem ar e tomado pelo nervosismo, mal deu tempo para um pio. Em instantes, estava deslocado, sem noção do que ocorria à sua volta e, logo, sentindo-se vitimado por imponentes pisadas.

No dia seguinte, todos os carreteiros da pernoite seguiram viagem. O pátio começou a se esvaziar, restando apenas o imenso caminhão boiadeiro. Chegando a tarde, funcionários do posto e da lanchonete, estranhando a situação e sem réstia de vida do motorista, resolveram empreender buscas nas imediações. Sem resultado, ao menos conseguiram entrar em contato com a fazenda dona da boiada.

Passaram-se quase dois meses do ocorrido. O veículo fora entregue à família do desaparecido. O gado seguiu destino noutra carreta fretada. No interior da gaiola, encontraram a picana eletrônica, reluzindo sob o sol implacável do semi-árido.



Crédito da imagem: Pexels

10 comentários:

  1. o cenário é tão ruim que deve ser verdade
    existe alguma justiça poética no final
    o garoto malvado tb foi morto pisoteado?

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    1. 90% é real. Lugares reais, fatos verídicos e venéreos. Rs. A ideia surgiu da puta que um boiadeiro executou no posto fiscal perto de onde moro, esmagando sua cabeça. Ele nunca foi encontrado.
      Sempre fui a um local similar comprar cigarro e as cenas descritas eram comuns.
      Mundão sujo...
      O garoto foi pisoteado, triturado e devorado? Tomara que sim.
      Abç

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    2. pobre puta
      boiadeiro bandido ninja
      gado vampiro mutante
      podia ser uma boa estória da linha vertigo

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    3. Quenga que furta boiadeiro tá pedindo fim trágico...
      "gado vampiro mutante" kkkkkkkkkk

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  2. "A infeliz, desacordada, foi posta no asfalto com a cabeça sob a roda dianteira do veículo" -- nao acredito que li isso. É tão surreal que senti vontade de rir. Não da pobre mulher, mas jamais esperei ler algo assim.
    Você tem um talento enorme pra escrita. Se o desenho for teu mesmo, já que está escrito autoral, vc tb tem veia artística para desenho. Compreendo que escrever seja mais fácil.
    Por que você esconde seu talento? Pode muito bem juntar mais um conto nesse estilo e publicar na Amazon. Quem sabe, esse tipo de literatura até formaria um público específico, pois achei determinadas partes tão "naturais" que pode ser que ganhe grande simpatia das pessoas que estão cheias de lerem mais do mesmo ou narrativas filtradas porque o conteúdo pode ser considerado opressor ou ofensivo. Pense nisso, mas não como lucro e, sim, como alguém que gostaria de ter leitores. A realização pessoal de ser lido por estranhos. Quem sabe, alguém realmente descobre você e algo grande acontece .
    Só acho que vc tem potencial a ser compartilhado.

    O preservativo do SUS é desconfortável mesmo pra colocar. Muitas vezes, faz o homem broxar. Mas ele é bem resistente e sua eficácia em proteção é tão competente quanto a dos preservativos particulares. Só que aqui em SP com essa onda de Prep e Pep, diminuiu muito o uso deles. O que não é bom.

    Um abraço.

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    1. Fabiano, fico feliz em ler suas palavras.

      Ando escrevendo muito pouco. Talvez, claro, um dia reúna uns contos desses e publique. Mas não gosto do formato da Amazon porque não oferece a opção de gratuidade permanente. Mas publiquei, ali, uma reunião de poemas. O problema é a formatação... O título é Invenção Noturna. Ofereço de graça o mesmo material no Scribd. Mas optei pela Amazon porque, ali, chama mais atenção e possui mais chance de ser lido.

      O desenho é meu. Às vezes gosto de rabiscar.

      Sobre a cabeça esmagada, é um fato que presenciei. O mundo é mais bizarro do que a ficção consegue ser.
      Quanto a Prep... uma pena. É um paradoxo: os avanços nessa área acabam retirando o medo do contágio e deixando as pessoas mais relapsas. Não é à toa que vem aí uma nova onda do HIV.

      Abraços!!!

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  3. Certamente este texto é do mesmo autor de "Despedida de Avalon". Adoro uma boa história de vingança.

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    1. "Adoro uma boa história de vingança."

      Eu tb. Embora me condicione a ser uma pessoa relativamente mansa e a aprender a engolir certos sapos de boa... É o melhor caminho.
      As vinganças mirabolantes e refinadas, daquelas que dariam até gosto praticá-las, só dão certo em ficção!

      Abraços, Pateta!

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  4. "As vinganças mirabolantes e refinadas, daquelas que dariam até gosto praticá-las, só dão certo em ficção!"

    Não foi à toa que a novela Avenida Brasil parou tudo aqui no dia do último capítulo, quando passou pela primeira vez.

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    1. Eu não via mais novela na época de Avenida Brasil, mas recordo do estrondoso sucesso. Arrisco dizer que ela marcou uma época.

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