sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Graphic MSP: Louco - Fuga & Turma da Mônica - Lições [ HQs ]


Acompanho o selo Graphic MSP desde seu lançamento. Após o sucesso da triologia MSP por 150 artistas, parecia natural um projeto assim. Meu receio, no início, era que se tornasse caça-níquel, com publicações medianas e até mesmo ruins. Para uma linha especial, com números editados ao léu, poderiam ter mais zelo. E foi o que houve: os álbuns surgem sem cerimônia e não parecem passar por crivo exigente. Há a imagem de que a MSP está mais preocupada com quantidade do que qualidade. Claro, já se passaram uns três anos e só tivemos dez títulos prontos e quatro anunciados. Mas, realmente, parece muito quando procedemos à filtragem exigente das obras. Até o momento, apenas não li Turma da Mata - Muralha, por Roger Cruz, Davi Calil e Artur Fujita. E, do que li, acho que apenas quatro volumes foram muito bons, com um mediano. Resenhei algumas obras e as destaquei no blogue anterior. Dois álbuns lidos mais recentemente ganham opiniões nesta postagem.

Nos extras da edição Louco: Fuga, conhecemos as influências de Rogério Coelho: Dave McKean e Bill Sienkiewicz. De certa forma, é mais ou menos o que encontraremos em suas mais de oitenta páginas. A arte é competente, muito bonita; e a colorização, a cereja do bolo. Mas o roteiro é tão fraco quanto a graphic Penadinho - Vida. Falta conteúdo e a trama se arrasta desnecessariamente, exibindo belos painéis com leiaute inovador (tomando como paradigma o selo, claro) numa trama que poderia ser condensada, sem perda, em talvez vinte páginas. As referências à mitologia da Turma e especialmente às publicações anteriores do selo Graphic MSP foram boas e apontam que o autor se deu ao menos ao trabalho de pesquisa; ou, então, é verdadeiramente fã da turminha. Resumindo: achei uma HQ dispensável, mas não ruim. Se você estiver com grana farta e tempo sobrando (bem como espaço para estocar quadrinhos), compre. A beleza da arte agrada a visão e pede umas repaginadas.

Um ponto interessante de Fuga foi recorrer à doutrina maniqueísta, onde há bem e mal claramente definidos. Também há um pouco de gnosticismo, onde um gênio superior teria criado o mal, dando-o aos homens. Presente de grego! Na trama, contudo, a maldade é vista como "positiva", para engrandecer o heroísmo. O lance dos Guardiões do Silêncio é legal; recordei alguns filmes de fantasia de minha infância. O mote da HQ, nas mãos de um bom roteirista, poderia ter dado melhor resultado.

Quando anunciaram que os irmãos Cafaggi fariam uma nova HQ para o Graphic MSP, pensei: lá vem continuação insossa de Laços. Mas surgiu Lições. E é um bom álbum, recomendável a todos que curtiram a primeira aventura. O traço, leiaute e colorização da equipe estão lá como antes. Mas o roteiro deu uma guinada, foi algo realmente novo: enquanto Laços tratava de amizade e união, Lições faz o mesmo, mas com a turminha dividida, enfrentando, cada um, seus próprios dilemas pessoais. As jornadas são solitárias. Pequenos dilemas de gente pequena; mas são justamente aqueles problemas que vão nos mostrando um pouco mais da vida, como ela às vezes parece sair de nosso controle, inexoravelmente.

Na minha infância, a vida às vezes parecia difícil; conquanto, hoje, pareça tão simples. Mudam os tempos. Mudamos nós. Mudam os dilemas. Hoje, sou grato pela boa infância que tive, no saldo geral.

Na trama, os quatro camaradas esquecem de fazer o dever de casa e ainda conseguem se meter em mais problemas fugindo da escola. A solução é drástica: Mônica vai outra escola por sugestão da diretoria; Cascão e Magali matriculam-se em atividades extracurriculares: natação (!) e etiqueta, respectivamente. E Cebolinha, sem a dentuça para defendê-lo, fica à mercê do valentão mais valentão dos quadrinhos infantis: Tonhão. Já a magricela da Magali conhece o Quindim, filho do padeiro, apaixona-se, mas não tem com quem desabafar, exceto por meio de curtos bilhetes trocados com Mônica por meio da lancheira de Dudu (o garoto que lança água pelos dedos!).

As últimas quatro páginas, além de fechar brilhantemente a história, não a fecha realmente. Entenderam? Bem, é que os autores conseguiram um final emblemático, mas cujas respostas os verdadeiros fãs da Turma conhecem de antemão. Assim, Magali faz sua primeira investida junto a Quindim, mas não sabemos a resposta. Cebolinha traça planos (in)falíveis contra Tonhão, seu valentão escolar, mas não sabemos se darão certo. Cascão reflete acerca de sua hidrofobia irracional; ele tocará o dedão do pé nas águas da piscina? E, por fim, Mônica desperta num bonito sábado de sol, onde não irá à nova escola e poderá ficar com seus velhos amigos. A HQ conclui-se como a vida: seguindo em frente.

No final de 2017, a dupla de irmãos lançou a HQ Lembranças e, atualmente, os três volumes podem ser adquiridos em um box.

Republicação de postagem de 05 de abril de 2016




4 comentários:

Fabiano Caldeira disse...

Não acompanho o selo. Não posso opinar. O filme é lindo, muito fofo, ideal para toda a família, especialmente crianças e idosos. Acredito que o trabalho de Victor e Ou Cafaggi sejam ótimos nessa linha.

Blogue do Neófito disse...

Já eu nao vi o filme! Rs

Larissa disse...

Eu conheci o quadrinho Laços por conta do filme porém ainda não o assisti. Fiquei interessada em comprar mas não o encontrei nas livrarias daqui, vi que foi muito elogiado. Gosto muito do personagem do Louco, acho ele incrível e por isso achei uma pena que o roteiro tenha sido fraco. Ao menos a qualidade continuou na Lições. Gostei muito do estilo do desenho delas.

Abraço,
Parágrafo Cult

Blogue do Neófito disse...

A união das artes dos dois casa bem. Realmente, não tenho como me queixar desse trabalho. Não vi o filme, mas ainda penso em dar conta desse atraso. Penso que, certamente, o cinema tenha deixado muitos elementos da "mitologia" da Turma de fora. Infelizmente, faz parte de adaptações esses vácuos. E acho que a graça de Laços e de Lições é justamente a constante referência aos aspectos mais antigos e constantes nas revistas da TM. Não procurei scans por aí do material, mas acho que não deve ser difícil de conseguir.

Abraços, Larrisa!

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