sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Os Últimos Dias do Xerife, HQ de Thiago Ossostortos


"Ah, é piada, né?"
Messias, o Xerife

No final de Cicatrizes, narrativa gráfica de David Small, ele nos conta sobre um sonho com sua mãe, então falecida. Quem leu essa autobiografia conhece o sofrimento do autor nas mãos de sua genitora, frustrada em toda sua vida adulta diante da não realização de seus sonhos, sua falta de coragem em se assumir lésbica e pelo fato (e fardo) de ter dado à luz. David nos conta que, no sonho, sua mãe limpava com esmero o acesso para o hospício, bastante feliz. E, na porta, o convidava para entrar. Ele conclui a obra nos dizendo "Eu não fui.". 

Foram anos de muitos gibis autobiográficos publicados no Brasil. Um que vendeu bastante foi Retalhos de Craig Thompson, com confissões inclusive sobre o abuso sexual sofrido, junto com o irmão, quando criança. De autores nacionais surgiram algumas porcarias e coisas boa. Dentre estas últimas, me marcou bastante o Memória de Elefante de Caeto Melo, especialmente por acompanharmos seu enfrentamento com os últimos dias de seu pai, bissexual e portador de HIV, vindo a falecer em decorrência de complicações com o vírus. Similar à obra de Caeto, destaco a excelente Fun Home de Alison Bechedel diante do estrangulamento emocional perante seu austero e exigente pai, homossexual, cuja morte é encoberta de dúvidas. Poderíamos ainda citar os medalhões das biografias em quadrinhos, como Maus e Persépolis - de Art Spiegelman e Marjane Satrapi, respectivamente -, mas não vêm ao caso.

Voltemos a Cicatrizes. Esta HQ realmente me marcou. Para utilizar um trocadilho infame: cutucou-me antigas cicatrizes, de feridas nunca totalmente saradas. Durante toda a minha vida não foi fácil conviver com minha mãe. Ainda criança, testemunhei sua detenção por agressão a uma vizinha. Fui à cadeia juntamente com meu irmão. De lá, telefonamos para meu pai e ele enviou advogado para os trâmites necessários e aguardamos sua soltura. Depois, testemunhei meu pai saindo de casa escoriado para nunca mais retornar ao nosso convívio, o qual já era escasso. Ela queria tudo de seu jeito e explorava os próprios filhos psicologicamente até o limite. Quando eu tinha quinze anos de idade, ouvi de meu pai: "Não sei como você e seu irmão não ficaram loucos". Na época ainda não entendia bem essa colocação. Depois, adulto, compreendi bem. Minha mãe sempre foi uma pessoa essencialmente má, com o ex companheiro, familiares e próprios filhos. Ela foi má consigo mesma, amiúdes. E ainda é. Atualmente, não nos falamos. Na verdade, ela não fala com ninguém e tomou até medidas judiciais com seus dois únicos filhos para se manter isolada. Sim, eu e meu irmão fomos processados por nossa mãe para que ela se sentisse mais à vontade em tocar a vida com seu atual companheiro. E o curioso é que nunca impedimos isso. Foi apenas para dar a punhalada final nos dois moleques que ela, a contragosto, pôs no mundo. Ainda lutei contra isso. Meu irmão - mais velho e , logo, mais vivido - lavou logo as mãos. Eu, confuso, ainda tentei lutar. À toa. Até que meditei bastante e, dentre tantos ensinamentos angariados ao longo da vida, recordei, também, de Cicatrizes. E assim, igual a David Small, eu também não fui. Não adentrei em seu mundo sombrio contaminado pela insanidade. E hoje estou melhor.

Por isso, enfim, gosto de autobiografias. Aprendo bastante com acertos e falhas de outros viventes. As pessoas abrem o coração como meramente humanas: destituídas de orgulho e vaidade. Tudo é e deve ser posto para fora. E é como terapia. Conversamos com o autor e dizemos a nós mesmo: "Também passei por isso". Ler, para mim, sempre foi como conversar com espectros e amigos ausentes. Ler salvou minha vida em momentos de grandes dificuldades. Nos episódios mais angustiantes de minha vida, foi à arte e à leitura onde me agarrei com unhas e dentes até o mar recuar. E ler algo como o escrito por Thiago Ossostortos vem a calhar em qualquer hora, seja boa ou má. Particularmente, o li num bom momento. Estou em paz comigo. Mas sua obra me remeteu à minha relação com meu pai, sempre distante, especialmente por culpa de minha mãe.

Não sei bem o que me atraiu para este gibi. Gibi ou graphic novel? Ah, tanto faz. Talvez tenha sido a capa. Aí li uma sinopse e achei interessante. Essencialmente, trata-se de uma semana onde o autor foi à casa paterna para acompanhar o que viriam a ser os últimos dias de seu genitor. Por terem visto muitos faroestes juntos, em seus devaneios artísticos, Thiago o retrata como Xerife, com direito à montaria e à distintivo de latão. E a capa que tanto gostei é emblemática, pois foi elaborada sobre a última foto de pai e filho juntos, na cozinha de casa. Se você reparar, é uma cena doméstica: mesa com refrigerante, armários típicos etc., só que o piso e as paredes são de madeira e ambos estão caracterizados como caubóis, destemidos homens de armas (embora armas não apareçam tanto como deveriam, nos trechos de "devaneios poéticos") prontos para encarar a Morte. Eu sabia que conhecia o trabalho do Ossostortos, só não recordava onde. Ainda procurei em caixas, aqui em casa, por algo dele. Mas não achei. Devo tê-lo visto apenas on line mesmo, há tempos. Não recordo até agora. Como disse, passei por muitos problemas familiares e minha mente entrou em modo econômico. Mesmo assim, o contatei por Instagram e adquiri o volume por mixaria: R$ 35,00, na promoção. Ao abrir o pacote, me surpreendi com a qualidade gráfica: papel similar ao pólen, boa gramatura e amarelado, ótimo para se ler sem cansar a visão. A capa é cartonada com orelhas generosas, evitando desgastes nas pontas. São duzentas páginas de miolo com boa impressão por uma bagatela. A abertura do volume também é agradável, sem receio de arrebentar a lombada. Li deitado na rede no mesmo dia, de uma vez, degustando um bom charuto robusto nacional, no melhor estilo velho oeste. E gostei muito da leitura, ao ponto de precisar indicá-la aqui. Ao final da história, temos alguns curtas acerca de sua relação, na infância, com o pai. Depois, galeria de extras com convidados retratando a letal inimiga Morte, tão presente em cada capítulo como árdua adversária. Gostei, essencialmente, da pin-up de Sueli Mendes, onde a Inominável toca violão numa choupana com o pôster de Três Homens em Conflito na parede.

Cada capítulo é iniciado com a capa de algum DVD de western. E a primeira página é logo uma adaptação de Era Uma no Oeste, comentado por mim aqui recentemente. Mais à frente, cita Era Uma Vez na América, outro filme de Sergio Leone também mencionado na mesma postagem. Como o velho Messias, Xerife imaginário, meu pai também gostava de faroeste e nunca assisti, até o final, nenhum filme ao seu lado. Depois, tomei gosto pelo filão western spaghetti. Meus filmes mais amados são de bang-bang. Entretanto, assisti a todos sozinho. Como mencionei mais acima, havia pouco contato entre meu pai, eu e meu irmão. Devido ao comportamento de minha mãe, isso tornou-se quase nulo no decorrer do tempo. Também há referências a filmes presentes em minha infância e adolescência, como A Balada do PistoleiroTombstone, De Volta para O Futuro IIITrinity É O Meu Nome, Os Jovens Pistoleiros, dentre outros até mesmo mais recentes da atual era streaming. E ainda sorrimos com cenas da vida passada, como quando comíamos produtos com certa ânsia porque estavam perto do vencimento, à frente da TV, assistindo a O Fantástico Mundo de Bob e outros da mesma época.

Na obra, obviamente, Ossostortos aproveita para destilar suas impressões imaturas sobre o velhote ranzinza. Se ele fosse camaradinha, não seria um pai, seria um irresponsável. É o que penso. Mas o autor reconhece, talvez tarde demais, os méritos de seu pai. Foi rude e exigente, controlador dos filhos e da liberdade da esposa. Um homem à moda antiga. Ele residia durante a semana noutra cidade, onde trabalhava como gerente de supermercado. Após sua morte, Thiago vasculha seu pequeno apartamento onde passava a maior parte dos dias e se depara com uma vida franciscana, sem luxos e quase sem conforto. Todo o esforço financeiro de seu pai se destinava à casa da família, pensando em deixar para a esposa e filhos o melhor, como todo "pai de família" razoavelmente responsável. Noutro momento, pensando na falta de paciência do velho Xerife, o artista nos relata que no dia a dia lhe falta tato até mesmo com os gatos que cria. Seu pai sustentou durante décadas uma família com seis pessoas. Ele tinha o direito de explodir às vezes, pensando bem, quando você perde a paciência até mesmo com bichinhos de estimação.

HQ bacana, mesmo assim senti falta de alguns aprofundamentos na trama. Daria para se estender mais sobre certos assuntos, em suas duzentas páginas. Assim, a relação do autor com o irmão mais velho - Anderson - nos deixa no escuro. Tudo é bastante nebuloso. Creio que o azedume entre ambos possui causa concreta, não esclarecida de propósito. E a causa da morte do Xerife também não é mencionada. Sabemos se tratar de uma doença que requer intervenções cirúrgicas até mesmo com amputação. Talvez o autor e sua família não ache educado comentar doenças, vai saber. Contudo, ao se ingressar neste mundo da autobiografia, você precisar estar disposto a contar tudo. A dimensão da doença nos ajuda a compreender a do drama. A doença em si é um mote - para recordar Dylan Dog. Aliás, a doença do (não tão) velho Xerife é o estopim de toda a história, a causa primeira. Recordo, agora, das HQs com pano de fundo autobiográfico de Lourenço Mutarelli: não há espaço para cautela e vergonha. Também verifiquei algumas menções erradas à cultura pop. Seu pai cita uma obra de Tarantino como "Os Oitos Condenados", quando seria "Os Oito Odiados". E, ao narrar um trecho do livro com a letra de Canto Para Minha Morte de Raul Seixas, troca "uísque" por "coca". Mas acho que esses lapsos são propositais, pois cotidianamente cometemos esses pequenos deslizes por ato falho para adaptar algo aos nossos aspectos.

Não pretendo me estender mais. No geral e em resumo: é uma ótima HQ. Talvez não fique em sua estante como aquele grande gibi, figurando entre os preferidos. Entretanto, para mim, encontrou bastante respaldo em meu arcabouço afetivo e, creio, não desagradará a ninguém. Na pior das experiências, lhe servirá como bom entretenimento em horas mortas. Vale a pena dar uma chance. E, repetindo, custa uma ninharia.

 Frontispício da HQ com o "seu" Messias integrado à cena de Era Uma Vez no Oeste.

Personagens como bonequinhos clássicos de faroeste na quarta capa.

Miolo da edição, papel de qualidade e boa impressão.

4 comentários:

Pateta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Blogue do Neófito disse...

Conheço algumas loucuras do Skylab desde que o vi, há muito e muito tempo, pela primeira vez, no programa do Jô Soares. Depois, tornou-se entrevistado corriqueiro por lá e possui - acho que ainda existe - seu próprio programa de entrevistas. Essa música não conhecia... Mas estou ouvindo agora, neste exato momento. Muito gostosa de se ouvir quando passa o trecho de xingamentos às personalidades. rs...

Sou como você. Me fiscalizo constantemente para não despejar, em minha filha, minhas frustrações, neuroses, fobias etc. Não a ponho numa redoma. Busco o equilíbrio. Jogar a realidade, aos poucos, é devido. Repassar transtornos e vícios de má formação humana a uma criança é mau caratismo, falta de responsabilidade como procriador ou, apenas, loucura.

Meu pai é uma figura emblemática. Sei que fomos os filhos que ele não pensou em ter. Mas não se cuidava para evitá-los. Contudo, tentou ser presente dentro do limite e nos deu uma boa vida material. Além disso, sempre o admirei por ter "se feito na vida". Um exemplo de "self made man". Saiu da fome para se tornar um homem rico ainda jovem, não tendo sequer completado o ensino fundamental. Gosta de ler, tem ótima memória, bom de cálculo e sempre aprendeu tudo de maneira fácil, até onde percebi.

No geral, gostei de minha infância. O saldo foi positivo. Na prova dos nove, a equação deu certo. Se não fossem os arroubos de minha mãe, teria sido perfeita. Mas, assim é a vida. Francamente, hoje, me pergunto como não cresci com medo da companhia feminina após crescer ao lado de uma mulher tão difícil.

Agora só nos cabe cuidar do "bacurinhos" que colocamos no mundo e não repetir os mesmos erros.

Abraços, Pateta!!!

Ah, consegui a postagem sobre Marxismo Cultural. Mas precisarei revisar tudo e tentar encontrar todos os links remissivos. Postarei quando estiver tudo pronto.

Unknown disse...

conheci esse blog atraves de outro limk, gostei das materias. muito boa.

Blogue do Neófito disse...

Opa, meu caro. Grato pelo comentário e seja sempre bem vindo. Abç

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