sábado, 24 de agosto de 2019

A Hora do Vampiro de Stephen King

Sinopse divulgada de 'Salem. Ben Mears havia jurado nunca mais pôr os pés em Jerusalem's Lot - ou 'salem, como é conhecida por seus habitantes. A cidadezinha onde passou quatro anos de sua infância foi palco de horrores que ainda lhe tiram o sono. No verão em que, finalmente preparado para exorcizar seus demônios, decide voltar a 'salem, descobre que o mal ainda vive e precisa ser sepultado. 
Junto com Ben, chegam à cidade dois forasteiros: o sr.Barlow, portador de um segredo que mudará a vida de todos à sua volta, e Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror. Logo em seguida, uma série de fatos inexplicáveis vem perturbar a rotina provinciana de 'salem: uma criança é encontrada morta; habitantes desaparecem sem deixar vestígios; uma estranha doença começa a fazer vítimas. A morte lança sua sombra gélida sobre a cidade, e Ben e Mark escolhem o caminho que resta aos sobreviventes: fugir. 
Mas os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem's Lot estão para sempre ligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas.
Às vezes penso que nenhum livro foi tão relevante a Stephen King quanto A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. A ideia de um ponto geográfico como vórtice para a ressonância do mal em suas obras, creio, vem dessa leitura. É assim em IT, onde algumas vezes Pennywise nos é revelado não como entidade cósmica ou sobrenatural, mas um aspecto da pequena e fictícia Derry. Em O Iluminado o protagonista não é Danny ou seu pai cachaceiro, mas o próprio hotel Overlock. E as remissões à obra de Shirley Jackson sempre foram constantes em King, assim como o fez em 'Salem, um de seu livros clássicos, leitura obrigatória a todos os fãs do autor macabro.

Certamente, essa ideia do mal reverberando no tempo e num dado local (casa, bairro, cidade etc.) não é recente, nem A Assombração na Casa da Colina foi o primeiro momento onde se tocou no assunto. Alan Moore, por exemplo, sempre procurou destrinchar o fenômeno em obras suas, como Do Inferno e A Voz do Fogo. E, confesso, tenho um certo fascínio por textos que abordam psicogeografia e temática correlata.

A Assombração da Casa da Colina é livro que se tornou raro no Brasil até sua republicação recente pela editora Suma. Exemplares em mau estado da finada editora Francisco Alves eram vendidos por até R$ 100,00. Por isso, só o li na versão digital "gratuita". Já 'Salem finalmente abandonou o título brazuca anterior de A Hora do Vampiro'Salem tem mais a ver com o título original Salem's Lot, curioso nome da cidade onde a trama se passa. A origem para a denominação da cidadela é explicada no romance. Assim, ponto para a Suma de Letras (selo da Objetiva que edita o velho Steve em nosso país). Jerusalem's Lot integra a geografia fictícia de King para sua amada região da Nova Inglaterra.

Conquanto goste mais do título nacional atual, A Hora do Vampiro não foi escolhido a esmo. Em mais de um momento da trama, ao se narrar o ritmo de vida da cidade, nos é dito que chegou "a hora do vampiro" às 19:00 horas. Aliás, são justamente nesses trechos sobre o cotidiano da cidade e seus peculiares moradores onde mais sentimos King por trás do romance. A graça em seus livros é que, além da trama principal e seus protagonistas, os povoamentos são eviscerados por meios de pequenas ações de vários cidadãos às vezes quase insignificantes à trama principal.
Nenhum organismo vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina, nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros oitenta. Por dentro, as paredes continuavam eretas, os tijolos aderiam precisamente a seus vizinhos, os soalhos eram firmes e as portas se mantinham sensatamente fechadas; o silêncio cobria solidamente a madeira e a pedra da Casa da Colina, e o que por lá andasse, andava sozinho.
- Primeiro e último parágrafos do romance de Shirley Jackson, inspirador não apenas de 'Salem, mas de boa parte da obra de King.
O principal personagem da trama é a Casa Marsten, onde uma tragédia envolvendo assassinato seguido de suicídio abalou a cidade. Além disso, acredita-se que o antigo dono da casa - Hubert "Hubie" Marsten - seria um sanguinário mafioso adepto de rituais envolvendo evisceração de crianças. O escritor Ben Mears possui um fato sombrio em seu passado, em relação a este casarão. E, ao retornar duas décadas após a 'Salem para exorcizar o medo, descobre que dois estranho chegaram concomitantemente para habitar o imóvel, quando estranhos fenômenos passam a ocorrer. Ben acredita que a Casa Marsten não trouxe esses convidados à toa: é realmente como um vórtice, um imã atraindo inexoravelmente o mal. Num determinado momento, a colocação de deboche de Susan Norton para o professor Matt Burke ratifica este pensamento: "Desconfio que a teoria dele seja um velho clichê parapsicológico. Que seres humanos fabricam o mal assim como produzem muco, excremento e outras secreções. E que permanece no lugar. É como se a Casa Marsten tivesse se tornado uma pilha carregada de mal, uma bateria maligna". No decorrer da leitura, contudo, descobrimos um poucos mais da relação entre a mansão, seu antigo proprietário mafioso e os novos habitante.

O final do romance é meio aberto, mas fecha, em seu epílogo, um ciclo iniciado no prólogo. Como em quase todos os livros do Mestre, vidas são ceifadas bruscamente em poucas páginas e, ao final, o saldo sempre é duvidoso: parece que ninguém saiu realmente vencedor. Por se tratar de um romance mais antigo, ainda não havia a prática de "mini spoilers" que o autor costumou utilizar em obras ulteriores.

Uma curiosidade. A história por trás da Casa Marsten envolve um assassinato seguido por suicídio. Uma semana após ler o romance, meu colega de trabalho assassinou a namorada com um tiro no peito e, depois estourou a própria cabeça. Tragédias lamentáveis desse mundo cada vez mais maluco e sincronicidades da vida.

A tradução é de Thelma Médici Nóbrega. Segue o formato dos demais livros da Objetiva (Suma) para o autor: brochura com orelhas, papel bom, meio amarelado (o que não cansa a visão). São mais de 460 páginas de bom terror. Uma história onde os vampiros não brilham ao sol.


Abraços soturnos e até a próxima.

2 comentários:

Marcelo disse...

Excelente matéria Kleiton! Referência à Assombração da Casa da Colina bem colocada.

A Hora do Vampiro eu li na adolescência. A adaptação Salem´s Lot de Tobe Hooper é interessante. Eu a tenho em DVD. O livro de King é fantástico na angústia e falta de esperança para os protagonistas. Coloco o livro entre as grandes obras do mestre King.

Abcs!!

Marcelo

Blogue do Neófito disse...

Grato a vc pela presença e excelente comentário, Marcelo. Abç!

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