quarta-feira, 24 de julho de 2019

Blade Runner na Netflix e nos quadrinhos


Eu vi coisas que vocês não imaginariam. 
Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. 
Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. 
Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. 
Hora de morrer. (Nexus-6 Roy Batty)

Fiquei feliz em ver Blade Runner no catálogo da Netflix esses dias, assim como Cobra com Stallone em toda a sua masculinidade hoje dita "tóxica" pela turma do patrulhamento ideológico acéfalo. Ando meio afastado da plataforma, assistindo a praticamente nada e pondo a leitura em dia. Por isso, suponho que estejam ali há certo tempo. Ao ver a disponibilidade, comentei, em relação a Blade Runner, com as pessoas próximas a mim - todas mais jovens - se tratar de um filme excepcional, um dos melhores realizados independentemente de gênero. Contudo, ninguém se interessou a vê-lo.

Pois é... Aquela obra prima da sétima arte, realizada de maneira soberba numa época de recursos tecnológicos limitados, com trama envolvente mesmo falando de coisas tão distantes, banhada em clima que transita entre o noir e o cyberpunk, em plena sintonia com a trilha embalada por Vangelis... encontra poucos interessados dentre o público mais jovem. Não podemos fazer nada quanto a isso. Talvez tenha se tornado algo datado demais, em termos de ficção científica. Contudo, não encontro nenhum exemplar no sci-fi contemporâneo que esteja à altura da obra de Ridley Scott. Aliás, quando vi o filme pela primeira vez foi na Globo, possivelmente na segunda ou terceira vez que o exibiram. Ele foi lançado quando eu nasci então certamente deveria ser algo já meio datado para mim. Talvez ajudasse se a Netflix dispusesse, concomitantemente, da sequência com Ryan Gosling. Isso atrairia mais gente, quem sabe. Ou o problema é mesmo estético. Pessoas mais jovens raramente se interessam por estética "analógica", mesmo que o conteúdo seja de elevado nível artístico. Ainda assim é algo que não compreendo, pois, esteticamente, é daquelas realizações insuperáveis, como o 2001 de Kubrick, cuja sequência se mostrou graficamente mais pobre, embora dispondo de mais recursos digitais.

Quem cresceu lendo quadrinhos na década de "90 sabe bem como a produção teve influência naquele nicho. Boa parte da produção nacional de ficção científica era inspirada no filme. Você constata isso em diversos trabalhos de Watson Portela, por exemplo, cujo traço tentava "emular" o de Moebius. Nas HQs infantis também tivemos referências bem divertidas. Assim, possuí, quando criança, quadrinhos com paródias. O d'Os Trapalhões não tenho mais. Perdi todas as minhas HQs com As Aventuras dos Trapalhões, inclusive a fantástica e bem escrita e desenhada Graphic Trapa Didi Volta Para O Futuro. É uma pena que César Sandoval e equipe, bem como as famílias envolvidas em direitos autorais, não busquem contato e cheguem a um entendimento para republicações daqueles quadrinhos em formato almanaque ou luxo. Creio que teria compra certa de um grande público saudosista. Felizmente, posso ler quase tudo publicado no título em arquivos digitais. Já da Disney, possuo na coleção Zé Carioca n.° 2369, com a ótima paródia estrelada pelo malandro emplumado numa Vila Xurupita do ano de 2034. É muito bacana esta história lançada pela Abril em 2012. O Zé começa se apresentando como Zé Deca, em referência ao Rick Deckard de Harrison Ford. Seria Zé DecaRioca (rs). Na icônica cena da briga no telhado com o monólogo de Rutger Hauer, o androide da paródia acaba "morrendo/pifando" porque molhou-se na chuva. E, no final, fica em aberto o suspense de que quase todo mundo na Vila Xurupita seria replicante, até mesmo o Zé Deca.

Na história Bode Ranner - O Caçador de Trapalhóides, achei a aplicação do fictício teste Voight-Kampff aplicado por Didi Deckard um dos melhores momentos, assim como a substituição da ameça dos replicantes pelo terror dos "atrapalháveis trapalhóides". Vale a pena a leitura. É bem divertida sem ridicularizar nosso intelecto com patrulhamento politicamente correto.

Se você nunca viu, aproveite. Curta esse grande filme, embriagando-se na trilha envolvente de Vangelis e na beleza natural de Sean Young quando jovem, em seu auge e quando ainda não era procurada pela polícia por furtar lojas de produtos eletrônicos.

Curiosamente, hoje, após publicar esta postagem, vi as notícias do falecimento de Rutger Hauer, o Nexus 6 Roy Batty. Ele faleceu no dia 19 deste mês, acometido por um mal não divulgado pela família, a qual apenas hoje divulgou à grande mídia seu óbito. Requiescat in pace, grande ator que encantou minha juventude com filmes como O Feitiço de Áquila e A Morte Pede Carona.

Abraços e até a próxima.







2 comentários:

Scant disse...

esse filme é perfeito, ainda que baseado na obra do doidão Philip "ouço vozes" K. Dick
esse material dos trapalhões é mais um perdido, mas salvo pelos anônimos que fazem scans
vangelis conseguiu fazer algo memorável com essa trilha

abs!

Blogue do Neófito disse...

"mas salvo pelos anônimos que fazem scans"

Anônimos malucos. Benditos sejam pela força de vontade de desejo de compartilhar...

Abraços!

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