domingo, 12 de maio de 2019

Border / Gräns : Film Review


Não enxergo sentido no mal.
Tina

Gosto muito de filmes gore, trash e porqueiras em geral. Não saberia sequer enumerar a quantidade de filmes e HQs cretinos consumidos apenas neste ano. Sendo assim, comecei a assistir a Gräns sem receio. A indicação do filme me chegou ao acaso e, apos ler algumas críticas, percebi que ele é como a fictícia Sucupira de Dias Gomes: você odeia ou ama. Pela sinopse e trailer, achei se tratar de algo entre terror e fantasia. Visto o filme, não sei mais onde encaixá-lo. Mas ficaria apenas no drama. E, longe de meus filmes "B", acabou se tornando uma das mais sensíveis obras vistas nos recentes anos. Aqui vai um pouco de spoiler, então se você for muito cheio de frescura, pare aqui. Estamos diante de uma história de trolls. Sim, trolls convivem entre nós e apenas poucos humanos sabem disso. E como uma narrativa assim pode dar certo e encontrar em nós enorme ressonância emocional, apenas o talento do cineasta Ali Abbasi poderia explicar.

Na trama, Tina é uma gabaritada oficial alfandegária que, igual a cães farejadores, não deixa passar nada. Ela sente cheiro de tudo: drogas, bebidas, produtos ilegais etc. E vai além, sentindo o odor de sentimentos e estados de espírito humanos: culpa, medo, raiva, desejo... entre outros. Ela é estranha, também, fisicamente: quase elo perdido entre o homem atual e de neandertal. Um dia, ela topa com alguém fisicamente parecido, Vore. E aí sua vida muda. Esse Vore acaba invadindo seu cotidiano. Na alfândega, após revista íntima, Tina havia descoberto que "ele" na verdade seria "ela", ou sabe-se lá o quê. Ambos possuem a mesma cicatriz sobre o cóccix, o que mais tarde ela descobrirá se tratar de antiga cauda, removida cirurgicamente. Num final de tarde, farão amor, e um pênis que Tina nunca conhecera surgirá do meio de suas pernas. Vore, então, lhe dirá serem eles trolls. Daí a aparência aberrante, o íntimo contato com a natureza (terra, animais e vegetação), a força e os dons como farejar até mesmo humores. Ao longo do tempo, comunidades de trolls vêm sendo destruídas, com eles mantidos em cativeiro até a morte. A própria Tina obtém de seu pai, mais à frente, que realmente fora retirada de seus pais biológicos enquanto eram mantidos em centro de contenção escondido num manicômio local, onde - veremos ao final - cada pedra no jardim corresponde a uma lápide.


Parece meio bobo ler algo assim: trolls entre nós. Como afirmei acima, não é. Parece tudo muito real. Tudo nos chega como se realmente pudesse ser daquela forma, naturalmente. E, ao meio deste assombro fantástico, o mundo real que conhecemos: dor, medo e, como pano de fundo, abuso sexual de crianças e tráfico de crianças com pornografia infantil. E, pior, com o envolvimento de trolls (não entregarei mais o roteiro a partir daqui). Aliás, de um troll com alma revolucionária, acreditando piamente que assim age para machucar os humanos e cobrar eventual dívida histórica, embora faça isso por safadeza mesmo e em troca de algumas coroas suecas. É mais ou menos o que sempre digo: seja branco, preto, rico, pobre, humano ou troll, quase todo mundo é filho da puta. No mundo, há todo tipo de gente e de troll. Não se guie por clichês e esteriótipos.

Achei sobretudo interessante os aspectos biológicos do filme. O troll enquanto uma criatura em franca simbiose com a terra, com a natureza. E tais seres nos chegam quase como ornitorrincos: tem um pouco de tudo do reino animal em sua constituição. Assim, por exemplo, a piroca de Tina esconde-se no corpo, similar ao aligátor. Vore põe fetos-ovo (hiisi), como a galinha pondo ovos não galados, acaso não tenha sido fecundada. Aliás, destaco que tais "ovos" são elementos essenciais na trama, conforme descobriremos próximo ao final.

Não me estenderei mais. Gräns é um filme esquisito, de câmera trêmula e estética fria, com ótimas maquiagem e fotografia, roteiro bem construído e, do início ao final, nos toca a alma, deixando um retrogosto de inquietação. Confesso que o vi pela madrugada e, durante o sono, tive um sonho/pesadelo insólito de ganho e perda com a mulher amada. Vai-se entender...

Abraços insólitos e até a próxima.

3 comentários:

Scant disse...

tinha ouvido falar e desprezei, agora com seu post merece uma chance
abs!

Blogue do Neófito disse...

Normal. Filme de trolls? Vc pensa logo: isso cheira à bosta. rs
Abraços, meu caro!

Fabiano Caldeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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