sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O Horror


"Há dois de você, não vê? Um que ama, outro que mata."
Roxanne

"Adoro o cheiro de napalm pela manhã."
Kilgore

"O horror."
Kurtz

Apocalypse Now de Francis Ford Coppola foi ligeiramente baseado em O Coração das Trevas de Joseph Conrad. Trocando oficiais da Marinha Mercante por militares americanos e os jogando na loucura do Vietnã, o resultado foi um dos maiores filmes realizados, onde o odor de sangue e napalm salta do ecrã direto às suas narinas. Para quem nunca assistiu a este filme, o recomendo. A primeira vez que o vi foi no início da faculdade; há uns vinte anos, acho. Essencialmente, trata-se da história do Capitão Benjamin Willard que é encarregado de procurar e exterminar o Coronel Walter E. Kurtz, gênio das forças armadas que enlouqueceu, entoucou-se no meio da selva vietnamita causando temor tanto aos americanos quanto aos vietcongues e compreendeu bem o horror e os dilemas morais que permeiam conflitos daquela natureza. Sentindo o final iminente do conflito, os americanos precisam retornar e um Oficial graduado como Kurtz (ele seria General) não pode ser deixado para trás e continuar causando mais problemas de imagem ao Exército.

Num monólogo de cinco minutos, Marlon Brando - em uma de suas melhores atuações - explica porque os Estados Unidos não ganharão aquela guerra. Basicamente, a cultura conservadora ianque impede isso. Há muito conflito ético quando a moral judaico cristã vai de encontro aos horrores necessários para ganhar em terreno como o vietnamita. Bons tempos geram homens fracos. Embate em chão é para poucos. Certamente, o conhecimento da selva, o ataque midiático progressista às tropas americanas e a cultura nativa impediram a vitória. Contudo, a disposição de homens firmes em seus preceitos morais para perpetrar atos - às nós - atrozes, foi decisivo. O resto da história conhecemos: a possibilidade de liberdade abandonou as várzeas vietnamitas e o Khmer Vermelho subjugou a região por anos a fio com tudo o que o comunismo raiz se alimenta: medo, fome, miséria e expurgos.

No momento, ao nosso lado, este mesmo horror ocupa a Venezuela. Nação rica em recursos naturais falecendo à míngua, sob a mesma ideologia nefasta que sustentou a tirania sangrenta de Pol Pot. Não há como não recordar das sábias (à primeira vista, insanas) palavras do Coronel Kurtz diante de tudo isso. Após um período relativamente longo de exposição à engenharia social marxista (estamos neste barco há quatro décadas), os miolos laceiam e os maiores horrores lançados contra o indivíduo e ao seu mais básico direito à liberdade parecem triviais; senão, corretos. Tudo se relativiza. Até mesmo a moral, ou aquele mínimo ético imprescindível à sobrevivência.

Vi horrores. Horrores que você viu. Mas você não tem o direito de me chamar de assassino. Você tem o direito de me matar. Você tem o direito de fazer isso. Mas você não tem o direito de me julgar. É impossível que palavras descrevam o que é necessário àqueles que não sabem o que o horror significa. Horror! O horror tem um rosto. E você deve fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral são seus amigos. Se eles não o forem, então são inimigos a temer. Eles são verdadeiramente inimigos! Lembro-me quando eu estava nas Forças Especiais... parecem cinco séculos atrás. Fomos a um acampamento inocular algumas crianças. Saímos do acampamento depois de termos inoculado as crianças para a pólio, e este velho veio correndo atrás de nós e estava chorando. Ele não podia ver. Nós voltamos para lá, e eles vieram e cortaram todos os braços inoculados. Lá estavam numa pilha. Uma pilha de bracinhos. E eu lembro ... eu ... eu ... chorei, chorei como uma vovó. Eu queria arrancar meus dentes. Eu não sabia o que queria fazer. E eu quero lembrar disso. Nunca quero esquecê-lo. Nunca quero esquecer. E então percebi, como se tivesse sido baleado, como se tivesse sido baleado com um diamante, uma bala de diamante na minha testa. E pensei: meu Deus, a genialidade disso! O genialidade! A vontade de fazer isso! Perfeito, genuíno, completo, cristalino, puro. E então percebi que eles eram mais fortes que nós, porque eles podiam acreditar que não eram monstros, eram homens treinados. Esses homens que lutaram com seus corações, que tinham famílias, que tiveram filhos, que estavam cheios de amor. Mas eles tinham a força, a força... para fazer isso. Se eu tivesse dez divisões desses homens, nossos problemas aqui acabariam bastante rápido. Você tem que ter homens que são morais... e ao mesmo tempo são capazes de utilizar seus instintos primordiais para matar sem sentir. Sem paixão. Sem julgamento. Sem julgamento! Porque é o julgamento que nos derrota.

É isso. Abraços e até a próxima.

6 comentários:

Rodrigo disse...

Acredita que não vi esse filme até hoje? Shame on me...

Quem critica os EUA por se enfiar no Vietnã certamente mal sabe qual era a outra opção que os vietnamitas tinham...

Sobre o tema, recomendo a ótima HQ "O melhor que podíamos fazer".

Blogue do Neófito disse...

Nunca ouvi falar desta Hq. Vou buscá-la.
Não perca tempo. Vi q há torrents em ótima resolução da versão redux estendida.
Abç!

Scant disse...

Coração das Trevas e suas encarnações é sempre bizarro: a loucura humana no ápice e com a capacidade se multiplicar por meio de adoradores. lembra-me de Jim jones.

abs!

Blogue do Neófito disse...

Ainda fundarei uma seita para chamar de minha, com orgias diárias e um mega suicídio ao final!

Scant disse...

por acaso achei esse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=35gN0Z6Yov4

abs!

Blogue do Neófito disse...

Já havia topado com ele. Acho q solidão mesmo têm o pseudo intelectual... rs

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